sábado, 22 de maio de 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010

Realidades

Moro atualmente na capital paulista, vizinho à Estação da Luz, na região da Cracolândia. Do décimo andar do prédio onde moro, posso ter tristes impressões sobre a fragilidade humana. Por aquelas ruas, dezenas, talvez centenas de pessoas, travestidas de farrapos humanos amparados pelo desespero, amontoam-se nas esquinas alaranjadas. A pedra aquecida, tragada aos poucos, parece-lhes injetar um sopro de vida mórbida.

Os olhos vazios, petrificados, dão-lhes a aparência de zumbis.

Não era o que eu via há um ano. Sob o céu azul e a vida na cidade do interior, outro rapaz tentava dar sentido ao seu caminho. Por mais que parecesse uma ideia desafiadora, tomar a decisão de abandonar o aconchego materno era uma tarefa penosa. Entretanto, mais cedo ou mais tarde chegaria a hora. E cá estou. De certa forma, acredito que todos deveriam ter, ao menos uma vez na vida, a oportunidade de saírem da cadeira do comodismo e terem um choque com a realidade.

Realidade em certos momentos ríspida, mas que em outros nos promove, com profunda sinceridade, boas histórias.

Conheci Orlando. Pernambucano de boa prosa radicado há 25 anos na cidade de São Paulo. Balconista de bar. Ao dizer a ele que aquela tarde estava “um calor da bexiga”, quis saber de onde eu havia tirado tal expressão. Tentei lhe esboçar algumas memórias, mas minha pequena e medíocre história não se comparava à dele.

Disse-me que quando chegara à capital paulista, trazia o sonho de todos que por aqui desembarcavam: ganhar a vida. Terra do trabalho, do dinheiro e das vicissitudes, São Paulo era o Eldorado prometido. Depois de três dias e duas noites num ônibus, vindo de Trucunhaém, no interior pernambucano, ancorava a vida na capital paulista.

Soube depois que Trucunhaém era movida pela cerâmica e pela cana de açúcar. Talvez Orlando não levasse jeito para modelar argila. Talvez não gostasse também da paisagem monótona do canavial. Com dezessete anos nas costas e um amigo já radicado na Xangrilá bandeirante, arredou o pé. Como ele mesmo me disse, “achava que São Paulo era uma espécie de ilusão”.

Os tempos passaram, e vinte e cinco anos depois, casado e com quatro filhos, Orlando não tem mais vontade de voltar. Mas apontou que algo muda atualmente por esses lados. Os migrantes estão voltando para sua terra. As condições de vida na região melhoraram; não há mais aqui o romântico encanto, a sedutora atração para almas aventureiras.

Ainda existe a São Paulo cinematográfica, dos campos, espaços e clichês. Ao sertanejo da Paraíba, de Pernambuco, da Bahia e do Brasil, Patativa do Assaré ainda declama seus versos, embalando a luta de um povo que alicerça, com concreto, suor e saudade, o desígnio de uma metrópole.

O desejo de voltar para casa é hoje a redenção de muitos que aqui já fizeram sua parte.

Burn

no metrô